Fragilidade na democracia atual: o que você tem a ver com isso?

O Brasil acordou bem movimentado hoje: manifestações contra reformas engendradas pelo governo, que envolvem interesses diretos dos trabalhadores e que resultaram numa importante paralisação de várias atividades econômico-sociais no país. Mas vamos às reflexões... Essa paralisação de hoje tem dois aspectos básicos em minha opinião:

1 - Não reconhecimento popular do governo Temer;
2 - Baixa qualidade da representatividade política, materializada no Congresso Nacional.

Ambos aspectos são consequências, em última análise, da fragilidade atual da nossa democracia, e pretendo defender essa ideia no decorrer desse texto. Primeiramente, apenas para melhor contextualizar a natureza do problema, há que se reconhecer a existência de um erro crasso em nossa legislação que permite que um impeachment resulte num governo que trabalhe no sentido contrário ao projeto que foi escolhido nas urnas. Explico melhor: o programa político vencedor nas urnas (do PT/PMDB) não está sendo cumprido pelo governante que "herdou" o comando político do país após o processo de impeachment. Pelo contrário, ele rejeitou o programa que ajudou a eleger a chapa da qual fazia parte, e está praticando o programa político da chapa derrotada. O resultado não poderia ser outro: não reconhecimento popular de seu governo.

No que tange ao congresso nacional, a operação lava jato tem descortinado os bastidores da negociação política espúria que vem sendo praticada no país há décadas (séculos?), resultando na incredulidade da população em relação à esmagadora maioria dos políticos atualmente detentores de mandato. Ou seja, a população brasileira não confia mais em seus representantes porque falta-lhes moral para ocupar uma função pública, sendo que paira no ar uma desconfiança permanente sobre quais os interesses reais (públicos ou privados?) que estão em jogo em discussões importantes como essas (direitos trabalhistas e previdenciários, para ser mais específico).

Somando-se o não reconhecimento do projeto de poder em execução pelo governo Temer à incredulidade geral para com a classe política do país, temos como resultado um momento social crítico, tenso e de pouquíssimos avanços. É lamentável verificar o quanto Temer tem sido maquiavélico nesse processo, procurando tirar proveito político-pessoal da situação, querendo vender a imagem de "salvador da pátria", ou melhor, de "remédio amargo porém necessário". "O presidente certo na hora certa"... Acho que é assim a propaganda ridícula e insensível do PMDB. Mas, meu objetivo não é falar do governo Temer, em que pese eu ter uma opinião bastante consolidada sobre sua incapacidade e falta de moral para governar.

Gostaria de falar sobre quais as possibilidade de "saídas" que temos para esse momento delicado da sociedade brasileira. Em meu entendimento, a saída mais viável ainda é pela política. Obviamente que estou me referindo ao sistema político democrático, em que pese estarmos totalmente fragilizados para exercê-lo no momento. O interessante disso é que essa fragilidade do sistema democrático brasileiro está em nós e não em nossos políticos, e por isso acredito que ainda podemos reverter essa situação incômoda. Ao menos essa é a minha tese. Vamos aos exemplos para melhor caracterizar o que desejo dizer.

Para mim e para uma penca de pessoas que conheço, no atual momento de desenvolvimento da sociedade brasileira, qualquer atuação política precisará ser norteada pelo combate sistemático do conflito social com o qual convivemos há décadas (séculos?), e que tem resultado em taxas absurdas de mortes evitáveis (sejam elas provocadas pela corrupção ou pela irresponsabilidade fiscal nas contas públicas, violência, fome, falta de moradia e de acesso a serviços básicos de saúde e educação de qualidade). Isso, entretanto, não significa que você (leitor) tenha que concordar comigo. Você pode acreditar em outras linhas de propostas. Você pode defender, por exemplo, que ao invés de trabalhar em políticas de combate à desigualdade social, a atuação política de um governo deverá estar centrada em estabelecer uma ordem social baseada na repressão sistemática ao crime, baseada na força policial e militar, e carreada pelo reestabelecimento de certos princípios morais.

Sem fazer juízo de valor sobre quem está certo ou errado, o viés ideológico que norteará a ação política, pode ser um ou outro, a depender de quem estiver no comando político e com quais ideias esse alguém se identifique. Isso significa que nós escolheremos pessoas que se identificam mais com aquilo que acreditamos ser o melhor caminho para uma atuação política consistente. A questão principal é que esse debate de ideias deveria ser o foco central da prática política democrática, o que entendo não ser, infelizmente. Nossa prática política atual é baseada em pessoas, não em ideias. E isso tem a ver com o modo como exercemos nossa cidadania. Nossa participação no campo político-social ainda é maciçamente realizada com base em nossa rede de relacionamentos. Na prática, isso significa que escolhemos nossos representantes políticos através das pessoas que de algum modo influenciam nosso cotidiano. Uma liderança comunitária, por exemplo. 

Fulano de tal, aquele que usa o slogan "esse você conhece", é o líder do bairro. É aquela figura que toda vez que você precisa de um serviço público recorre a ele. Ele está sempre disponível para ajudar e ir atrás de alguém que vai resolver o problema para ele e para você. Então, Fulano de tal chega a sua casa na época de eleição e pede seu apoio para aquele Deputado que você nunca ouviu falar. Bem, por que você vai se dar ao trabalho de buscar informações sobre esse Deputado? Afinal, isso vai lhe ocupar muito tempo, tempo este que você não tem... Além disso, Fulano de tal afirmou que esse Deputado vai abrir as portas para que ele possa continuar ajudando seu bairro. Então, não importa que tipo de ideias ele tem ou  que tipo de ideias ele defende e que resultará em sua prática política quando estiver no poder. Apenas importa que ele vai ajudar Fulano de Tal a continuar conseguindo resolver os problemas do meu bairro.

Percebe o quanto delegamos a responsabilidade de nossa participação para o outro? Se a sua liderança comunitária é uma pessoa de caráter, ainda temos esperança, pois que vai procurar se aliar a políticos que tenham ideologias coerentes com as coisas que você acredita. Mas, como caráter é uma coisa que anda faltando no mercado, o que temos visto há anos e anos é a prática de coaptação financeira de lideranças, sem que haja qualquer compromisso com o conjunto de ideias que serão defendidas pelos políticos beneficiados por esse sistema. Por isso é que o sistema político tornou-se tão caro no Brasil: cooptar lideranças tem a ver com dinheiro, não com ideias. Ninguém tem tanto dinheiro fazendo política de maneira honesta... E, então, aparecem as "Odebrecht da vida" se propondo a financiar os políticos para que defendam seus interesses corporativos, que por sua vez vão precisar de dinheiro para cooptar novas lideranças visando manter-se no poder... E o ciclo vicioso se instaura.

As lideranças locais aprenderam rapidamente que não precisam prestar contas de sua responsabilidade para com os políticos que representam, desde que estejam mantendo sua rede de "serviços prestados" à comunidade. E nós, membros da comunidade, nos acomodamos com isso. O resultado? Políticos que se distanciam de nós, de nossas ideias e interesses. Daí resulta a fragilidade atual em nossa democracia. Não sabemos quem são e o que defendem os políticos em quem votamos. Se torna tão irresponsável o ato de votar, que sequer lembramos em quem votamos nas últimas eleições. Manter essa qualidade da nossa participação político-social foi e continuará sendo o motivo principal de nosso fracasso democrático.
De nada adiantará fazermos manifestações, presenciais ou virtuais, se não qualificarmos nossa participação na vida político-social do país. Não podemos continuar alimentando esse sistema. Sim, porque somos nós quem os alimentamos. Somos nós quem delegamos nossa responsabilidade de conhecer as ideias, a história pregressa, as práticas políticas de nossos candidatos, futuros representantes políticos.

Principais reflexões resultantes dessa rápida análise:

1) A fragilidade da democracia precisa ser combatida pela qualificação da participação político-social, pois no modo de funcionar atual, nossa participação (materializada no voto) é muito ruim. Ou seja, nossos políticos são um reflexo do que praticamos como cidadãos.

2) A qualificação da nossa participação político-social deve começar pela centralização no debate das ideias e não das pessoas. Escolhemos pessoas antes das ideias. Votamos em A ou B porque de alguma forma seremos beneficiados por elas, seja porque teremos acesso a um emprego, bem material ou simplesmente, a futuras "facilidades" de acesso aos serviços públicos.

3) Somos nós quem alimentamos a prática política atual, e não adianta reclamar nas redes sociais, fazer manifestações e paralisações se não mudarmos a qualidade de nossa participação.

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